terça-feira, 26 de julho de 2011

Esconderijo

Ricardo Fabião



Há um menino por baixo das coisas,
Por tão dentro assim que se diz âmago.
Ali, no mais distante e só do nosso ser,
Onde não acontecem palavras nem sol.
Ele vive de roer umas migalhas de vida,
Sob o regime vigilante do bom senso...

Às vezes joga verdades pela nossa boca,
Mas logo rejeitado retorna para sua cela.
Está sempre sozinho, ausente das horas,
Com destino de eterno breu e silêncio.
Lá não há escada que facilite sua fuga,
Nem verdades que clareiem o caminho.

Esse menino levaremos calado até o fim,
Para que vençam nossas meias-verdades,
E façam de nós homens que não fomos,
E sagrem mulheres que jamais existiram,
E que assim a estrada de viver siga planos,
E a sociedade não seja afetada pelo real.

Esse garoto e sua bandeira pequenina,
Assim guardado talvez seja o único jeito
De manter no caminho a raça humana;
Driblando verdades, maquiando desejos.
Que durma pois nosso menino em sigilo,
Deixado para um acaso qualquer adiante.

Hoje não, que viver ainda é de disfarces,
Um contrato assinado antes de nascermos:
Por um quase-caminho vai uma quase-vida;
Um seguir de regras sumariamente prontas.
É só viver do tamanho que morre o âmago,
E agendar para outra vez o que silencia.



Olhos d'água


Phábio Pio


Eu vesti meu melhor sorriso e minhas luvas de estimação
Para cumprimentar pessoas que para mim não significam nada
Onde você estava, olhos d’água?
Gargarejei e me embriaguei e causei prejuízos a sua reputação
Enquanto ouvi a marcha dos tolos e dancei de roupa encharcada
O que você ouviu olhos d’água?
Arranquei todas as figuras suspensas do meu quadro de ilusão
E estive a meia-dúzia de passos de ter a minha vida sepultada
Por que não estava comigo, olhos d’água?
Existem quase sete bilhões de pessoas nesse velho mundo cão
Que nunca vão ler nenhuma das minhas palavras dilaceradas
Você leu alguma delas, olhos d’água?
Não percebe que apenas mendigo um pouco de atenção?
Não, você nada vê, quando está com os olhos cheios de lágrimas.





quarta-feira, 20 de julho de 2011

Por mais uma vítima do trânsito. Até quando?


Deusimar Guedes


Raiza, meu amor!
Só hoje estou lembrando que nestes seus mais de dezessete anos de vida na terra eu nunca lhe escrevi uma carta. Assim, resolvi me comunicar com você desta forma, talvez antiquada para o mundo atual, em que as pessoas se comunicam com equipamentos eletrônicos de tecnologia moderna como: computadores portáteis, telefones móveis e similares. Mesmo assim insisto em escrever-lhe esta carta para lhe dizer coisas que o dito mundo moderno não nos dá tempo para dizer. Pais e mães da modernidade precisam trabalhar mais de uma dezena de horas por dia para suprirem seus desejos de consumo desenfreado, imposto pelo capitalismo selvagem, onde o "TER" é bem mais importante que o "SER". Assim, as relações humanas, mesmo entre os familiares e entes queridos são sempre momentâneas e voláteis.
Desta forma, descrevo nesta carta algumas coisas que não tive tempo de lhe dizer.
Só agora percebo, querida filha Raiza, quantos caminhos desta vida eu não pude lhe mostrar.
Porque você partiu tão cedo meu anjo? Dizem que foi Deus que a chamou para assessorá-lo lá no céu. Mas ele não me emprestou você para que eu pudesse educar? Diga pra Deus que, apesar de eu ter lhe ensinado a não fazer uso abusivo de drogas, a respeitar o próximo, a escolher bem as companhias, a não dirigir antes dos dezoito anos, a jamais cruzar o sinal vermelho no trânsito etc, eu não tive tempo de lhe dizer que, apesar de agirmos sempre de acordo com estes ensinamentos e amar o próximo, existem pessoas que desrespeitam, que abusam de drogas lícitas e ilícitas, que dirigem embriagadas, que avançam o sinal vermelho, que atropelam e matam pessoas inocentes quando do retorno das suas orgias noturnas. Perdão minha filha, porque apesar de ter lhe feito acreditar que o mundo é dotado de mais trigo do que joio, no nosso Brasil, muitas vezes os trabalhadores responsáveis pela retirada do joio do meio do trigo falham, e, consequentemente, o bom e saudável trigo é injustamente destruído.
Perdão meu amor, por ter me esquecido de lhe advertir sobre a constante presença de ervas daninhas, mesmo num plantio de propriedade de Deus. Prometo que continuarei lutando para cumprir o que lhe ensinei e prometi, ou seja, a busca de um mundo melhor, mais justo e mais humano, onde o joio não continue destruindo e sufocando o trigo.
Devo dizer que não está sendo fácil, é uma luta desigual. Assim, já que você está ai no céu, fale com Deus, e diga-lhe que preciso de forças para enfrentar o momento mais triste da minha vida. Além do luto da partida precoce de minha amada filha "caçula", ainda tenho que manter o coração brando e não alimentar o sentimento de vingança tão presente em nós, imperfeitos seres humanos, sentimento este muitas vezes alimentado pela sensação de injustiça reinante aqui na terra.
Nunca esqueça que te amo. Saudades sem fim.
Assinado: seu imperfeito e relapso pai aqui da terra.

(Homenagem a sua filha Raiza, morta em um acidente de trânsito em João Pessoa, por um motorista "assassino" embriagado, em 16 de julho de 2011)



* Esta carta foi publicada em solidariedade à família de Raiza.

domingo, 17 de julho de 2011

Quanto tempo?



Halanna Nóbrega

Até quando teremos tempo? Tempo de mudar a nós mesmos. Tempo para encontrar as mesmas oportunidades, onde agimos equivocadamente no passado, e que fez tudo ser assim. Teremos a mesma chance, com a mesma oportunidade? Mas dessa vez, pra acertar? Fazendo o que deveria ser feito, na hora certa, no lugar certo, com as pessoas certas. Até quando? Quanto tempo ainda há pela frente? Não se sabe. O futuro é uma caixa de surpresas. Mágicas, surpreendentes e por vezes, ou muitas vezes, insanas. Surpresas insanas. Por quantas vezes na mesma vida, poderemos ter a sorte de encontrar o verdadeiro amor? Viver por milhões de vezes o encanto do começo de uma paixão que surge e muda tudo. Transgride, subverte, remete, reflete, impulsiona e dá mais vontade de viver. Dos encantos dos encontros ao acaso. Das manhãs de alegria, das noites de tédio, de inspiração, de diversão, de boemia, de insônia, de amor, de construção, de leituras, de estudo. Tempo, tempo, tempo. Perfeito, porque todos seguirão o mesmo caminho em função dele. É inevitável a vinda de um novo dia. É inevitável não me encantar com a simplicidade da vida, de não me encher das mesmices que me irritam, que fazem agir estupidamente, do mesmo modo que ao fim de tudo, arrependo-me, viro lixo, tenho vergonha de mim. Penso e sei que não posso voltar atrás e fazer diferente. É aprender com as atitudes imbecis e esperar outras oportunidades para mostrar a quem estiver ao meu redor, que sou melhor do fui, que aquilo foi um momento infeliz e que me engrandecerão depois de tudo. Mas eu terei esse tempo? A mesma oportunidade virá na presença das mesmas pessoas? Não sei. Aos trinta se tem mais razão. Consigo ponderar pontos fortes, fracos, priorizar o que é mais importante. Quero viver mais uns cem anos. Se apenas trinta me mostrou o encanto da maturidade, mais trinta deverá ser muito melhor. Quero fazer amigos, quero reunir as pessoas que gosto. Quero arrancar de mim os meus atos que me fazem infeliz, corrigir minhas imperfeições. Viver melhor. Colocar qualidade até na respiração. Encarar os desafios com mais coragem, mais garra, mais vontade de vencer sempre. Mostrar resultado positivo. Dar exemplo. Poder conhecer nossas crianças adultas. Como serão? Teremos mesmo tempo? Eis a questão.




segunda-feira, 11 de julho de 2011

Abandono

João Batista de Siqueira 
("Cancão")


Não quero mais o teu amor, perjura
Não me seduzas, coração fingido
Repara, vê como estou ferido
Por teu sorriso de voraz ternura

És como a cobra ao sentir bravura
Das criaturas que já tem mordido
Em teu espírito há um mal contido
Pra teu veneno não existe cura

Foge pra longe com os teus encantos
Enxuga noutro teus malditos prantos
Não me atormente com teus falsos 'ais'

Esquece os tempos que jamais revivem
Deixa eu viver como as aves vivem
Por minha vida não pergunte mais.