Luna
"...Derrame a taça
E deixe que se quebre o velho cristal.
Não tente conter o que se for.
E se vai, parte, então deixe ir.
O que parte, depois que se parte
É o que fica do caco que crava,
Calo que fica do peso da taça,
E segue, partido, se espalhando
Por todos os cantos que não se quer...
E os pedaços miúdos
Já não ficam tanto a incomodar,
Como se fossem a ponta cega
De antes, de então, de sempre.
Sofrer mais de dores pequenas,
Dos restos menores,
É alívio para a alma,
Descanso do corte,
Lento e profundo,
Que um rasgo de vidro (qualquer), deixou
Em um não cicatrizar jamais..."
E o tempo-cicatriz torna-se o peso que se carrega pelos dias que se arrastam...
Pelas palavras que ainda cortam...
Pelas almas que se reconhecem...
Pelos silêncios que buscam se entender...
Derramemos a taça...


