quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Fotografia


Luiz Humberto
   (Fotógrafo e professor da UnB)


Que seria da memória
sem a fotografia?

Que seria do homem
sem seus vestígios?

Como saberíamos dos avós,
do rosto da infância de nossos filhos?

Que seria de nós
sem ancoragem
no tempo que esgarça e destrói?

Que seria de nós
sem nossos baús
de saudade
e choro?

É a fotografia que segura relógios,
retorna calendários,
faz do passado presente,
num instante.

Fala do retrato denunciador,
da esperança sumida,
dos amores acabados,
cujas caras
não mais nos tocam.

Fala da finitude
das coisas,
da velocidade,
da vida.

Dá vida
ao já morto,
reacende olhares
por um isntante.

Fala das lições
nunca aprendidas,
da esperança
na razão
sem razão.

Fala, fotografia!
Dá notícias do homem,
em seu difícil trajeto.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Memória

Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.





segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Sobre a dor

Rodrigo Falcão

É o sentimento real e agudo, de vida vivida
feito de forma sofrida e recatada

É como a memória no choro de criança,
dentro do útero na gestação materna

É estar dentro da suavidade do blues  mágico,
imaginado Robert Johnson transformando-se em maestro

É nunca mais escutar o poeta jamaicano infeliz,
repetir constantemente: não chore mais!





Inania Verba

Olavo Bilac


Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava, 
O que a boca não diz, o que a mão não escreve? 
- Ardes, sangras, pregada a' tua cruz, e, em breve, 
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava... 

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava: 
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve... 
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve, 
Que, perfume e dano, refulgia e voava. 

Quem o molde achará para a expressão de tudo? 
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas 
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta? 

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo? 
E as palavras de fé que nunca foram ditas? 
E as confissões de amor que morrem na garganta?!



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Poema

Ricardo Anísio


Como me arde assim em desencanto
A minha alma quedada ao desalento
Talvez n’algum mar sem tanto pranto
Possa eu navegar-me ao descontento

Quiçá naufragar-me-ei sozinho
E do sinistro salvar-se-á a humanidade
Ou então que eu renasça desse espinho
Que meu coração perpassa sem alarde

Não hei de confessar-me degredado
Quando ainda restar-me a primavera
Inalarei odores do pomar sagrado
E erguerei meu túmulo na quimera

Sendo assim estarás me afagando
Quando tuas mãos deitares na borrasca
E a chama estará em mim se apagando
Porque sem ti meu peito é de nevasca!



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

À finada amada

Phábio Pio


Numa lista de nomes esquecíveis
Apenas do seu nunca esqueci
Das frases muitas vezes repetidas
Só nas ditas pra você nunca menti
Ainda posso imaginá-la desfilar
Com a leveza de quem anda no ar
Nunca encontrei toque como o seu 
Lembro bem do beijo de despedida
E nem sabia que era nosso adeus 
Aprendi a conviver com sua partida
E com o fato de que você morreu
Certo de encontrá-la em outra vida.


Versos de amor

Augusto dos Anjos



Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a... ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda boca que o não prova engana.

Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.

Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando,
É espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima de carne miserável
Como anda garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Mársias - o inventor da flauta - 
Vou inventar também outro instrumento!

Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!

Para que, enfim, chegando a à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d'alma!


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Presença

Mário Quintana

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho que fechar os olhos para ver-te!