quarta-feira, 15 de março de 2017

Outro mundo


Daniel Delgado Queissada

Hoje
Repeti o mesmo mundo....no fim
Viver de amor....e depois
Morrer brandamente em mim
Outro castelo recriei
Após rochas caírem
Até a pintura borrei
Com as mais belas alvitres
Agora procure o que te desperta
O que te deixa em alerta
O que queima, mas não arde
O que, mesmo no fim, nunca é tarde
O que ficou para trás
São esfumaturas embranquecidas
Perde-se o tom da tinta
Mas não a importância adquirida
Pois mesmo manchas abstrais
Ainda borram a pintura que já fora
A vida em sete cores iniciais
Torna-se cinza, diferente de outrora
E não segui seus passos
Preferi os meus
Eram mais suaves
E livres do que os teus
Pesadas eram as rédeas
Que determinavam a direção
Dos raios e das pedras
Que atingiam o coração
Amanhã
Vou reinventar outro mundo.....se der
Morrer de amor....e depois
Ressuscitar num domingo qualquer


Fonte: http://bardoescritor.blogspot.com.br/

sexta-feira, 3 de março de 2017

Outra solidão


Nei Duclós

Tentei, mas foi em vão.
Eras de outra solidão.
Montamos acampamento nas nuvens e depois desativamos. 
Choveu.
Tua ausência é como um final de tarde.
O domingo me protege, com sua capa neutra de dia santo. 
Tudo é empurrado para o dia seguinte, 
danação das segundas-feiras.
De repente o teu frio chegou de viagem. 
Perguntou pelas lãs e o fogo, pediu abrigo. 
Mas só havia a ressaca de um verão perdido.
Alguém bate na porta. 
Levo um susto e vou ver. 
É o vento. 
Sente frio de si mesmo
Nos convencem a desistir. 
Quando concordamos, um olhar de surpresa começa tudo de novo.
Fechei-me para balanço. 
Só tu, amor sem esperança, 
poderá mudar o que não tem mais jeito.
Viajo pelo tempo, para cidades que moram onde não mais estamos.
Voltaste, sol no outono. 
Deste fim à trégua para que eu sobrevivesse.
Amanheci contigo diante dos pássaros. 
Éramos dois silêncios em doses de encantamento.
Arrastar a asa prejudica o voo.
Solte-se, me capture à toa.
Só dentro de mim te identifico. 
Fora, deixa solto o enigma. 
Que não achem teu calor que me abriga.
O amor ensina o convívio. 
Apaga as cicatrizes, lava as feridas. 
Retorna o tempo perdido, compõe o que chamamos vida.
Te misturas às plantas como as asas de seres sagrados. 
Terna imagem de uma vocação de arte.
És música, perfil de fé maior. 
Beleza que aprofunda o som que escuto ao te ver.
Quando fica tarde demais, amanhece. 
A flor vem depois do temporal.
Sentiu saudade? 
Eu esperei. 
Me fizeste provar uma eternidade.
Deus fez o homem e depois achou que podia fazer melhor.
Sou de outro planeta. Este mesmo. 
De onde vim e para onde me perco.
Começo cedo, depois encerro. 
Mas fica o aceno que não me deste.
Abrigo tuas asas, amor sem pouso fixo.
O corpo adivinha as curvas, por isso o assédio de rua é tão ridículo. 
Olhar escancarado é puro desconhecimento. 
Fechamos os olhos para sentir a brisa
Não sei mais o que é dor, o que é esperança. 
Talvez esquecer seja só o começo.
A beleza não se sustenta. 
A alma só existe se houver alimento.




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