terça-feira, 31 de maio de 2011

Solidão que invadiu minha casa


Halanna Nóbrega

Levei golpes covardes.
Numa luta de dois contra um.
Perdido na estrada ígnea da felicidade
Mar de mágoas que afogaram todo amor!          
Querendo chegar a tempo, fui retardatário
Padeci pelo amor que tinha dono
Escoou entre os dedos, pelo tempo
Tornando-se intangível para sempre!



"Não precisa ser poeta para escrever poesia. A poesia não pergunta sua ocupação, ela pousa." 
[Fabrício Carpinejar]




De quando a nossa vida conversa


Jessiely Soares
Varanda
de porta 
entreaberta

o vento que escorre de longe,
quente,
me chega às avessas

traduzindo murmúrio de conchas
das horas
surdas e longas

com as memórias,
feridas vivas...

e é quando nossa vida conversa.

Eu lhe mando um bilhete
eólico

com mil beijos
etéreos

para que se acaso pensar
que não mais lhe penso em  versos

saiba que mesmo de longe
a nossa varanda ainda esconde
os poemas que eu não entrego.

e esse vento que viaja de volta
e que lhe chega às avessas

carrega cantigas de noites
das janelas de ruas desertas

é a cidade do interior
que lhe manda um beijo no rosto

e diz que sente desgosto
na noite em que você não regressa

assina com cheiro de lua
para que eu me finja de espelho

bem aqui, onde eu não o vejo,
e onde nem mais me lembro
como se escreve poesia

seu sorriso relicário
me volta em ondas de vento
e se escreve como poema 
sem tormento, em minha folha vazia.


segunda-feira, 30 de maio de 2011

Desiderato

   Antonio Calloni


Quero te contar, à meia voz, uma história de bestas e santos. 
Quero te escrever secreta e despudorada. 
Quero você deitada de lado, sem a dor do músculo. 
Quero tuas coxas de leão, tua música sem letra, teu som 
original. 
Quero um rasgo em duas vozes, o estado quente do teu vício. 

Quero de ti, minha menina, tua boca adestrada. 
Quero de ti, meu bem querer, a fraude amorosa. 
Quero de ti, minha mulher, tuas carnes redentoras. 
Quero de ti, minha poetisa, tua jóia disforme. 
Quero de ti, minha amada, a paciência de anjo. 

Mulher, 
do sonho, quero a flecha; 
da vida, quero o lume; 
e da festa, quero o felino. 

Quero os 15 quilos do filho. Do Pai, de um Espírito Santo. 
Quero concordar com o xingamento. Jogar fora o amor próprio. 
Quero do firmamento, a imagem de um Cristo. 
Quero o nobre metal, uma nave, uma embarcação. 
Quero de meu pai, sua calibre 20. Cano duplo. 
Quero de minha mãe, seu interno oceano. 

Mulher, 
contigo eu quero as igrejas, os bordéis, os castigos. 
A boa ventura eu quero, mulher. Contigo. 
Quero ganhar no jogo, inventar um degrau. 
Das luas, quero a rajada. 
Levantar, lavar pedras, batizar minha cabeça com sangue de 
bode.  
Quero fuzis, balas, tambores, estandartes, duelos, pão e vinho. 
Quero a embriaguez e suas vertigens, mulher. Contigo. 
Sempre contigo.