segunda-feira, 30 de maio de 2011

Desiderato

   Antonio Calloni


Quero te contar, à meia voz, uma história de bestas e santos. 
Quero te escrever secreta e despudorada. 
Quero você deitada de lado, sem a dor do músculo. 
Quero tuas coxas de leão, tua música sem letra, teu som 
original. 
Quero um rasgo em duas vozes, o estado quente do teu vício. 

Quero de ti, minha menina, tua boca adestrada. 
Quero de ti, meu bem querer, a fraude amorosa. 
Quero de ti, minha mulher, tuas carnes redentoras. 
Quero de ti, minha poetisa, tua jóia disforme. 
Quero de ti, minha amada, a paciência de anjo. 

Mulher, 
do sonho, quero a flecha; 
da vida, quero o lume; 
e da festa, quero o felino. 

Quero os 15 quilos do filho. Do Pai, de um Espírito Santo. 
Quero concordar com o xingamento. Jogar fora o amor próprio. 
Quero do firmamento, a imagem de um Cristo. 
Quero o nobre metal, uma nave, uma embarcação. 
Quero de meu pai, sua calibre 20. Cano duplo. 
Quero de minha mãe, seu interno oceano. 

Mulher, 
contigo eu quero as igrejas, os bordéis, os castigos. 
A boa ventura eu quero, mulher. Contigo. 
Quero ganhar no jogo, inventar um degrau. 
Das luas, quero a rajada. 
Levantar, lavar pedras, batizar minha cabeça com sangue de 
bode.  
Quero fuzis, balas, tambores, estandartes, duelos, pão e vinho. 
Quero a embriaguez e suas vertigens, mulher. Contigo. 
Sempre contigo. 

Um comentário:

  1. Que bela surpresa. Não sabia da tua intenção de criar um blog. Que maravilha, agora já sei onde procurar boas poesias. Parabéns, começaste muito bem. Já tens uma frequentadora. Sorte grande, prima. Beijos pra tu.

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