sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Poesia, volta... Fico muito longe de mim sem você!

Jessiely Soares


Eu preciso da poesia, mapa com versos gastos
bêbada, sem sapatos
ou com flores na janela.
Falando da lembrança que esfacela
ou do singelo poeta incediário.

Um poema de versos detalhados
com gosto de vento, neve e velas
como uma noite abandonada numa cela
como a platéia que esvazia um teatro.

Eu preciso dela, que resulta nesse poema
tristeza, envolta em névoa do passado.
Com inútil tristeza que se pinta
da morte que nos deixou só um retrato...


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Habeas Pinho (petição)



Ronaldo Cunha Lima
(O poeta)

"Um boêmio foi preso fazendo uma serenata e, no dia seguinte, fui procurado pelo boêmio, porque o  violão estava preso. O delegado prendeu o violão como prova do crime. E eu procurei o juiz, Dr. Arthur Moura, que me falou: - O instrumento do crime é um violão; o advogado é poeta; o réu é um boêmio da poesia. Faça um verso que eu defiro. Então, resolvi fazer o poema para liberar o violão.

A petição 'Habeas Pinho' feita por Ronaldo, foi escrita nos seguintes termos:

O instrumento do crime que se arrola
neste processo de contravenção
não é faca, revólver nem pistola,
é simplesmente, doutor, um violão.

Um violão, doutor, que na verdade
Não matou nem feriu um cidadão.
Feriu, sim, a sensibilidade
de quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
instrumento de amor e saudade.
O crime a ele nunca se mistura.
Inexiste entre eles afinidade.

O violão é próprio dos cantores,
dos menestréis de alma enternecida
que cantam as mágoas que povoam a vida
e sufocam suas próprias dores.

O violão é música e é canção,
é sentimento vida e alegria,
é pureza é néctar que extasia,
é adorno espiritual do coração.

Seu viver como o nosso é transitório,
mas seu destino, não, se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua
e não para ser arquivo de cartório.

Mande soltá-lo pelo amor da noite
que sente vazia em suas horas,
p'ra que volte a sentir o terno açoite
de suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, Dr. Juiz,
Em nome da justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz,
cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e afinal, será pecado
será delito de tão vis horrores,
perambular nas ruas um desgraçado
derramando na rua as suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
na certeza do seu acolhimento.
Juntada desta aos autos nós pedimos
e pedimos também DEFERIMENTO."

O então juiz de Direito da 2ª Vara da Comarca, Arthur Moura, não se fez de rogado e respondeu à petição do advogado Ronaldo Cunha Lima no mesmo estilo:

"Para que eu não carregue
remorso no coração,
determino que se entregue
ao seu dono o violão."

Campina Grande, junho de 1955.