domingo, 27 de outubro de 2013

Pátria Minha



Vinícius de Moraes

Barcelona , 1949


A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação e o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:

"Pátria minha, saudades de quem te ama…





sábado, 19 de outubro de 2013

Soneto do amor total



Vinícius de Moraes

Rio de Janeiro , 1951

À um grande amor!



Amo-te tanto, meu amor... não cante 
O humano coração com mais verdade... 
Amo-te como amigo e como amante 
Numa sempre diversa realidade 

Amo-te afim, de um calmo amor prestante, 
E te amo além, presente na saudade. 
Amo-te, enfim, com grande liberdade 
Dentro da eternidade e a cada instante. 

Amo-te como um bicho, simplesmente, 
De um amor sem mistério e sem virtude 
Com um desejo maciço e permanente. 

E de te amar assim muito e amiúde, 
É que um dia em teu corpo de repente 
Hei de morrer de amar mais do que pude.


Centenário do Poeta, poetinha Vinícius de Moraes [19 de outubro de 1913 a 09 de julho de 1980].


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Old Times



Halanna Nóbrega


Como podes dormir, sem sono?
Como o desprezar, se tu admiras?
Como não ser grata, sendo?
Como é possível mascarar os sentimentos, se tu és tão transparente?
Assim como a água limpa de cacimba.

Vestir-se de orgulho torpe,
Fingir que não vês...
E fingir que não és vista,
Somente para não se cumprimentarem em um encontro ao acaso.

Como podes?
Somente para manter adormecido,
O soturno afeto que te feriu outrora?
Dividir afinidades preciosas durante a breve amizade que existiu:

Versos, parágrafos, poesia
Cinema, música, fotografia
Literatura, cemitério, carta de alforria
Indicar autores, romances, poetas
Dividir livros, copos, amigos na mesa de bar.

A fresta que restou no canavial e não cresce...
A finada amada que não mais virá na outra vida...
Aquela música que nunca mais tocou ...
A lágrima perdida do Pierrot e a angustia apaixonada...
As palavras dilaceradas que se perderam...
E os olhos d’água que secaram.

Farpas, palavras mordazes e segredos publicados
O sórdido amor que dinamitou uma amizade infinita
Pondo-a um fim.
(Tanto que aprendi e ensinei)

E agora, 
que fazer destes versos...
Se não sei como os entregar?



quarta-feira, 31 de julho de 2013

Soneto

Álvares de Azevedo


Pálida à luz da lâmpada sombria, 
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada, 
Entre as nuvens do amor ela dormia! 

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada! 
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia! 

Era a mais bela! Seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo! 
Por ti - as noites eu velei chorando, 
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!

quarta-feira, 24 de julho de 2013

HINO NACIONAL BRASILEIRO II (versão dos Parlamentares do Congresso Nacional)


Phábio Pio

Os gritos do Ipiranga as margens poluídas
De um povo enganado o brado alienante
E o sol da futilidade, em raios fúlgidos
Brilha no céu da Pátria a todo instante.

Se o penhor dessa desigualdade
Conseguimos aceitar do sul ao norte,
Em teu seio, ó Libertinagem,
Já não há quem desafie a própria morte!

Ó pátria amada,
Ignorada,
Salve!Salve!

Brasil, um pesadelo intenso de crimes vividos
Sem amor ou esperança a terra desce,
Se em teu cinzento céu, risonho e cínico,
A imagem do cruzeiro desaparece.

Gigante pela própria natureza,
És belo, és forte, ridicularizado colosso,
E o teu futuro espelha uma utópica grandeza.

Terra devastada
Entre outras mil
És tu, Brasil
Ó pátria amada!

Dos filhos desse solo já não és mãe tão gentil,
Pátria amada,
Brasil!

Acomodado eternamente em berço esplêndido
Ao som do mar e a sombra do céu moribundo
Envergonhas, ó Brasil, blefe da América,
Ofuscada pelo sol do Novo Mundo!

Do que a terra tão saqueada
Teus tristonhos, incinerados campos, não têm mais tantas flores;
“Nem nossos bosques tantas vidas”,
“Nossa vida” no teu seio “menos amores”.

Ó Pátria amada,
Ignorada,
Salve!Salve!

Brasil, do tesão eterno seja símbolo
Cortesã dos políticos excitados,
No luxurioso verde-louro desta cama flâmula
Caos no futuro e vergonha no passado.

Mas, não há quem erga com justiça a clava forte,
Verás que um filho teu não quer mais luta
E teme, quem te adora, a própria morte.

Terra devastada
Entre outras mil,
És tu, Brasil
Ó Pátria amada!

Dos filhos desse solo já não és mãe tão gentil,
Pátria amada,

Brasil!


domingo, 19 de maio de 2013

A experiência humana é, sobremaneira, pedagógica.


Ricardo Fabião

A experiência humana é, sobremaneira, pedagógica. 
Todas as frases ditas, todos os gestos cometidos, todas as investidas, todos os silêncios, nada passará despercebido aos olhares e sentires do mundo. 
As pessoas aprendem comigo; eu aprendo com as pessoas. 
Agora mesmo, estão todos equacionando erros e acertos, pondo-os em balanças, filtrando-os para pôr em quadros de avisos em seus lares... 
Aprendo com os bons filmes, discos e livros, e aprendo com os maus também - tudo é referência;
tudo está sendo mentalmente fotografado e, mesmo que eu não queira, transformando-se em mim. 
Sou tudo um pouco em todos aquilo o que dizem, e, simultaneamente, todos em mim dizem deles comigo um tanto. 
Por isso, admito sempre os vários lados do mundo, os de ver, os de apagar, pois estou lá, em tudo, com todos, e também não estou... 
Creiam, não somos o centro de nós mesmos, nem mesmo detemos nossa personalidade, pois somos apenas lados e possibilidades - lados abertos por dentro e por fora -, algo sem encaixe... 
Somos apenas a sede de incansáveis experiências, de eternos aprendizados... 
E isso só tem alívio no fim porque guardamos um tanto de sede para o dia seguinte.

Lá fora, a chuva e as pessoas da noite...

quarta-feira, 27 de março de 2013

Insónia



Pablo Neruda

Posso escrever os versos mais tristes esta noite. 
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe". 
O vento da noite gira no céu e canta. 

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou. 
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito. 

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. 
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi. 

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho. 
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo. 

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido. 
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo. 

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos. 
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido. 

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos. 
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. 

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido. 
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.