sábado, 18 de novembro de 2017

Geladeira Azul



Jonathas Falcão 



Vou me abrigar na geladeira
Não pra fugir do calor

Pra conservar teu abraco
Em mim, meu amor

Não derreter, não derreter
Vou te esperar adormecido

Minha saudade congelo
A ponta da tua língua
Há de vencer o gelo

Me derreter, me derreter

As lágrimas congelando, descem
Formando estalactites, tento

Lembrando o tanto que queima, aquece
Meu corpo quando te sinto dentro. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Rélogio de não marcar horas


E Agora José?

o beijo dos cegos
dedos e corpos
sejam minha língua
pra te dizer

o que minha alma fala
em gritos e urros, falo
mais alto, em silêncio
fazendo cafuné em seus cachos

quero e me perco de desejo
com você em meus braços
dormindo em meu peito

sempre feliz como agora
perdendo ponteiros
esquecer as horas.


terça-feira, 1 de agosto de 2017

Dá-me para a melancolia




Manuel António Pina

Só mais um dia,
um dia luminoso e barulhento
 por mim a dentro,
um dia bastaria,
em prosa que fosse.

 Mas dá-me para a melancolia
 para a limpeza, para a harmonia,
 impacientam-me as migalhas
de pão na mesa, as falhas
 da pintura do teto,
 as vozes das visitas, despropositadas,
sinto-me sujo como um objeto,
desapegado, desarrumado.

 Trocaria bem esse dia
 por um pouco de arrumação
 - no quarto e no coração.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Era cedo



Halanna Nóbrega


O corpo sente
Adoece!
A alma diáfana
Se revela no olhar introverso
e no semblante soturno
Pela doce companhia
Pela alegria
Pelo amor
Que se foi tão cedo!
Agora é só pensamento...
Essa ausência forte, presente
Fincada na memória
De um coração partido.


terça-feira, 11 de julho de 2017

Despedida



Rubem Braga


E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Mora comigo



Luiz Carlos Lacerda

Mora comigo na minha casa
Um rapaz que eu amo
Aquilo que ele não me diz porque não sabe
Vai me dizendo com o seu corpo
Que dança pra mim
Ele me adora e eu vejo através de seus olhos
O menino que aperta o gatilho do coração
Sem saber o nome do que pratica
Ele me adora e eu gratifico
Só com olhos que eu vejo
Corto todas as cebolas da casa
Arrasto os móveis, incenso...
Ele tem um medo de dizer que me ama
E me aperta a mão
E me chama de amiga.




sexta-feira, 23 de junho de 2017

Inspiração


Ricardo Fabião


nasci quando recriei a dor humana,
sou da intenção muda de certos caminhos,
não me vejo de outro instante senão do devir,
minha fotografia é uma frase avançando,
de onde emergem gritos e vazios profundos;
a ânsia com que vou é dos textos e da loucura,
sou filha do silêncio com contextos de atalho,
guardo alegrias sob o peso das exclamações,
trago entre pontos notícias tristes dos homens,
desço e subo atônita em intervalos de vírgula,
perco minha voz em dúvidas de reticências,
não tenho casa, sou de como segue a frase,
não tenho tema, vivo de sentidos e sons,
entro em parafuso no fim de cada estrofe
para atravessar o fundo branco que há em ser,
se há mais luz depois é quando sou desejo;

fui criada para exceder a intenção do eu lírico,
para nem ser eu mesma e nem assim o eu outro;
existindo de empréstimo de ideias e gêneros,
sou o que se escreve aqui e o que não se vê,
o que se inscreve por haver sido mel ou sangue,
estendo rios para que naveguem os amantes,
semeio horizontes para que sigam os errantes,
desenho planos de fuga, ânsias de fogo e fel,
estou num estado de entrelugar, de entresser,
com veredas que vão a várias possibilidades...
é assim que aconteço de vida em tudo e nada,
para depois dessa viagem de ocos e mundos,
retornar ao desvio onde deito as palavras,
e zelar pelo vão das janelas na última frase,
onde os verdes da alma começam a amadurecer...
com cuidado para que logo deitem as sementes,
que tudo meu morre e nasce de outras linhas,
a evitar sempre os abismos do ponto final.


terça-feira, 18 de abril de 2017

Um poema. Um aviso. Um manifesto


Maria Cecília Nachtergaele
Por Matheus Nachtergaele



Desse jeito você sempre vai ser só.
Não seja assim!
Tente não ser assim.
Com você não há busca.
Assim não pode ser feliz.
Não é por minha causa que eu digo
Eu confesso, também minha procura acabou.
Mas por você!
Pela felicidade de você!
Pela ternura.
Esse verso vai ficar piegas e comprido, mas não faz mal
Não se você entender que essa minha angústia é por você!
Independentemente, por você!
As pessoas...
Veja as pessoas como elas são!
Eu não acredito que elas precisem tanto de você,
Quanto você precisa delas!
E vai ficando tarde...
É uma questão de defesa
Não saia por aí assim!
Por favor,
Não saia por aí assim,
Tão seguro de si.
Dispondo apenas de uma saudade apaziguada...
Para cada grande tristeza que deveria sentir.
Não seja mais assim.
Desculpa, eu repetir:
Ou não vão querer você!
E desculpe também,
Por ter falado tanto...
Sei que é bobagem minha
Mas eu amo você!


O "conscerto" de Nachtergaele.
Matheus Nachtergaele recita poemas de sua mãe.