sábado, 18 de abril de 2015

Victória...

Ricardo Fabião

Victória...

Guardei para ti todos os meus verbos para dizer plenitude, e nasceste... Agora, cresces diante de mim. Daí que me ponho à plateia para ver o teu espetáculo de ser no mundo. 
É difícil, enquanto pai, colocar-me ao fundo, sentado na última fila, para não intervir com olhos excessivamente interventores na marcação do texto que interpretas nos dias. O texto da tua vida é teu. Eu só aprendo com isso. Peço-te, tão somente, que me leves contigo, ainda que abstratamente, já que comigo és, estás, vives, desde que eras uma possibilidade. Creio que a matemática mais complexa não daria conta de explicar essa intrigante conta que é amar algo fora, sabendo que, inversamente por dentro, esse mesmo amor, em incessante fluxo, indo à coisa amada, voltando ao amador, é infinitamente maior que todas as possibilidades de percebê-lo.  As palavras, mais uma vez, e eu tentarei todas com essa intenção, não conseguem revelar a contento toda a anatomia do meu amor por ti.

Parabéns, minha filha.
Seja feliz consigo.


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Monólogo de Orfeu



Vinicius de Moraes

Mulher mais adorada!
Agora que não estás,
deixa que rompa o meu peito em soluços
Te enrustiste em minha vida,
e cada hora que passa
É mais por que te amar
a hora derrama o seu óleo de amor em mim, amada.

E sabes de uma coisa?
Cada vez que o sofrimento vem,
essa vontade de estar perto, se longe
ou estar mais perto se perto
Que é que eu sei?
Este sentir-se fraco,
o peito extravasado
o mel correndo,
essa incapacidade de me sentir mais eu, Orfeu;
Tudo isso que é bem capaz
de confundir o espírito de um homem.

Nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga,
esse contentamento, esse corpo
E me dizes essas coisas
que me dão essa força, esse orgulho de rei.

Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música.
Nunca fujas de mim.
Sem ti, sou nada.
Sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada.
Orfeu menos Eurídice: coisa incompreensível!
A existência sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos.
Tu és a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo,
minha amiga mais querida!

Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura!
Quem poderia pensar que Orfeu,
Orfeu cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres -
que ele, Orfeu,
Ficasse assim rendido aos teus encantos?

Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho
que eu vou te seguindo no pensamento
e aqui me deixo rente quando voltares,
pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo

Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo.