quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Do que vai ficar


Ronaldo Cunha Lima



Não importa que da despedida não fique nada.
Bastam as outras coisas que já vão ficar:
Do muito que nos vimos, pelo menos um olhar há de ficar
De tudo o que dissemos, pelo menos uma palavra vai ficar
Do quanto nós fizemos, pelo menos um gesto vai ficar

E, do tanto que nos amamos, pelo menos um pouco de amor há de ficar
E, pelo que vimos, pelo que dissemos, pelo que fizemos e pelo que amamos, pelo menos em lembrança, um ou outro vai ficar.






quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Água Perrier




Antonio Cícero

Não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês

Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.

Só proponho
alimentar meu tédio.
Para tanto, exponho
a minha admiração.
Você em troca cede o
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação:

Adoro, sei lá por que,
esse olhar
meio escudo
que em vez de meu álcool forte pede água Perrier.

domingo, 5 de julho de 2015

O Pergaminho dos ossos velhos e os lambedores de diamantes



Phábio Pio


A mesma correnteza
que arrastou meus ancestrais nos navios negreiros
trouxe-me o pergaminho dos ossos velhos
num baú que devolvi ao mar
afundando nele os meus mais tenebrosos medos

Tenho lido o manuscrito
e aprendido a não jogar diamantes aos porcos,
mas quando necessário mergulho na lama deles
São esses pequenos e mundanos prazeres
que me fazem sentir forte,
por mais de um milhão de vezes

Vejo o homem e sua ambição insaciável
que busca pela fantasia social
na qual melhor fica adequado
Até que ponto eu e você,
não passamos de meros escravos?!

Soltem os pássaros das gaiolas
e parem de alimentar sua crueldade caprichosa
As mais torpes frustrações estão refletidas
na maneira como confinam os seus bichos
Você pede para que não sugira isso
e eu pergunto: quais são seus animais de estimação?!

Quando pareço dançar conforme a música,
eu costumo bater acidentalmente na vitrola,
só pra arranhar o velho disco e mudar de faixa
no momento em que ninguém prestar atenção

Finjo achar graça nas piadas dos políticos
que falam seriamente no picadeiro,
na pretensão de usar meu isqueiro
ajudando os indignados a tentar pôr fogo no circo

Farto de brincar na lama,
eu parto sem deixar os porcos sujarem meus diamantes
Permito apenas que eles lambam todos eles.

sábado, 18 de abril de 2015

Victória...

Ricardo Fabião

Victória...

Guardei para ti todos os meus verbos para dizer plenitude, e nasceste... Agora, cresces diante de mim. Daí que me ponho à plateia para ver o teu espetáculo de ser no mundo. 
É difícil, enquanto pai, colocar-me ao fundo, sentado na última fila, para não intervir com olhos excessivamente interventores na marcação do texto que interpretas nos dias. O texto da tua vida é teu. Eu só aprendo com isso. Peço-te, tão somente, que me leves contigo, ainda que abstratamente, já que comigo és, estás, vives, desde que eras uma possibilidade. Creio que a matemática mais complexa não daria conta de explicar essa intrigante conta que é amar algo fora, sabendo que, inversamente por dentro, esse mesmo amor, em incessante fluxo, indo à coisa amada, voltando ao amador, é infinitamente maior que todas as possibilidades de percebê-lo.  As palavras, mais uma vez, e eu tentarei todas com essa intenção, não conseguem revelar a contento toda a anatomia do meu amor por ti.

Parabéns, minha filha.
Seja feliz consigo.


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Monólogo de Orfeu



Vinicius de Moraes

Mulher mais adorada!
Agora que não estás,
deixa que rompa o meu peito em soluços
Te enrustiste em minha vida,
e cada hora que passa
É mais por que te amar
a hora derrama o seu óleo de amor em mim, amada.

E sabes de uma coisa?
Cada vez que o sofrimento vem,
essa vontade de estar perto, se longe
ou estar mais perto se perto
Que é que eu sei?
Este sentir-se fraco,
o peito extravasado
o mel correndo,
essa incapacidade de me sentir mais eu, Orfeu;
Tudo isso que é bem capaz
de confundir o espírito de um homem.

Nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga,
esse contentamento, esse corpo
E me dizes essas coisas
que me dão essa força, esse orgulho de rei.

Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música.
Nunca fujas de mim.
Sem ti, sou nada.
Sou coisa sem razão, jogada, sou pedra rolada.
Orfeu menos Eurídice: coisa incompreensível!
A existência sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos.
Tu és a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo,
minha amiga mais querida!

Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura!
Quem poderia pensar que Orfeu,
Orfeu cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres -
que ele, Orfeu,
Ficasse assim rendido aos teus encantos?

Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho
que eu vou te seguindo no pensamento
e aqui me deixo rente quando voltares,
pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo

Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Se me esqueceres




Pablo Neruda

Quero que saibas
uma coisa.

Sabes como é:
se olho
a lua de cristal, o ramo vermelho
do lento outono à minha janela,
se toco
junto do lume
a impalpável cinza
ou o enrugado corpo da lenha,
tudo me leva para ti,
como se tudo o que existe,
aromas, luz, metais,
fosse pequenos barcos que navegam
até às tuas ilhas que me esperam.

Mas agora,
se pouco a pouco me deixas de amar
deixarei de te amar pouco a pouco.

Se de súbito
me esqueceres
não me procures,
porque já te terei esquecido.

Se julgas que é vasto e louco
o vento de bandeiras
que passa pela minha vida
e te resolves
a deixar-me na margem
do coração em que tenho raízes,
pensa
que nesse dia,
a essa hora
levantarei os braços
e as minhas raízes sairão
em busca de outra terra.

Porém
se todos os dias,
a toda a hora,
te sentes destinada a mim
com doçura implacável,
se todos os dias uma flor
uma flor te sobe aos lábios à minha procura,
ai meu amor, ai minha amada,
em mim todo esse fogo se repete,
em mim nada se apaga nem se esquece,
o meu amor alimenta-se do teu amor,
e enquanto viveres estará nos teus braços
sem sair dos meus.