terça-feira, 31 de maio de 2016

Maria



Daniela Mercury

Todos os meus sentidos sabiam da sua existência
mas sem consciência eu já amava Maria
Com o olfato, o tato, o olhar
o meu corpo me dizia que conhecia Maria e eu nem sabia

Como numa canção, como numa poesia
eu percebi que Maria existia antes da razão
Seria fantasia? Seria somente imaginação?
Assim passaram dias de dúvidas
se Maria era apenas ilusão
Mas se Maria já tinha casa, por que comigo casaria?
Se Maria já tinha planos, por que os mudaria?
Se Maria já tinha amor, por que eu amara Maria?
Se ela de mim não precisava, somente eu precisaria?

Se somente eu amava e ela amava minha alegria
pensei, repensei e nunca entendi por que ela me fazia sorrir
Ela não era minha namorada, nem me amava, nem sabia que existia amor
Ah! Será que Maria me amaria?

Então o que fazer se não podia dizer, afinal a mim era proibido chegar perto do seu sorriso
e queria tanto beijá-la e nem sabia o motivo
Parecia ímã, parecia Tempestade de Shakespeare
parecia romance. Ai se Deus me desse a chance de sentir seu perfume
queria ser como vaga-lume, queria sentir seus braços à minha volta
já não podia dormir, pois via Maria quase todo dia, mas ela estava sempre tão longe e tão perto de mim
ela nem imaginava que ali estava alguém que a amava e nem eu mesma sabia
O desejo foi me tomando… e a poesia…
e o sorriso… e o seu cheiro… e a alegria
Fui sendo alimentada pelo sonho de ver Maria.
Vê-la já me fazia tão bem
observá-la já me acalmava a alma
Como chegar a Maria?

Maria já havia tomado toda a minha atenção
já tinha saudade de Maria, Maria já vivia em meu coração

Acho que minha pressa foi a paixão
Queria apenas que ela soubesse que eu a queria e que dentro de mim ela já era imensidão
precisava de sua companhia
e da poesia que me acendeu a alma e me deixava em alvoroço quando a via
Te amo Maria e peço licença pra lhe conhecer
desculpe o mau jeito
hei de fazer direito
Hoje você já é minha ainda que não queira
saiba que é você quem me faz viver e lembrar que eu mereço ser feliz com você!

(Maria é como Daniela chama Malu em diversas poesias)

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Você reconhecerá quando o amor chegar


Bruna Breck
Cronista do Jornal da Paraíba

Nesta vida marcada de encontros e desencontros, chegadas e partidas, aceite a entrega e escolha as pessoas que preferem ficar. Amores tóxicos e relações autodestrutivas se tornaram uma constante… Vivemos na busca incansável por romances perfeitos e muitas vezes vamos nos perdendo no meio do caminho.
Idealizamos companheiros impecáveis, amores irretocáveis, mas nos deparamos com estelionatários sentimentais e sequestradores de alma. Amar nos dias atuais é ato revolucionário e exige coragem dos poucos que ainda se aventuram por esse universo desconhecido.
Os jogos da conquista existem, vários picaretas escrevem livros com as regras da sedução, é possível resumir toda a obra produzida: “não faça sexo no primeiro encontro”; “não ligue no dia seguinte”; “não demonstre interesse”, “não se mostre disponível”… Isso é esquizofrênico e destrói a beleza da espontaneidade do amor!
Ter um coração sedentário e não ser adepto das práticas desportivas afetivas nos presenteia com as surpresas do destino. Pessoas robotizadas, que seguem padrões e escondem ou fingem emoções não é nada acolhedor, apresentam o lado frio e teatral dos vínculos superficiais.
Não controlar impulsos e seguir os desejos nos humaniza, nos aproxima e nos une. Amar sem burocracia, sem protocolos, sem horários e sem medos! Entregar-se sem desconfiança e pular em abismos!
É uma época de crise – política, cultural, social, emocional – escolheram os “cinquenta tons de cinza” e abandonaram a mistura de cores. Os laços são rasos e transitórios, somos a geração do “troca-troca”… Se o casamento não deu certo, nos separamos, se o namoro está ruim, rompemos, não há vontade de tentar, não consertamos, jogamos tudo fora e queremos um amor novinho em folha.
Nós temos vergonha de fraquejar, afinal, amar é decretar falência múltipla dos órgãos, é nocaute, é invasão, é golpe, é regime ditatorial, é coma induzido! Já dizia meu velho Charles Bukowski: “O amor é um cão dos diabos, é para os que aguentam a sobrecarga psíquica.”
Podemos escolher entre a covardia e a coragem, entre a zona de conforto e a bagunça das paixões! Nos resta seguir em frente, com tropeços, algumas fraturas expostas e muitas histórias.
Quando o amor chegar nós o reconheceremos, será leve e não nos causará tantas perdas e danos… Ele não nos fará esperar, não desligará o telefone, não aparecerá apenas nos momentos de carência sexual e não trará dúvidas! Não chegará com aquela coleção de desculpas esfarrapadas: “O problema não é você, sou eu”; “Não estou preparado para nenhuma relação agora”, “Eu preciso de um tempo”… Entendam, o amor tem pressa, fome e sede! Para os apaixonados não há amanhã!
Então, quando amor chegar, aceite! Ele virá através de momentos simples, um colchão na varanda, uma rede no domingo e nada mais (e você terá o mundo).

domingo, 22 de maio de 2016

O que está na alma



Ricardo Fabião


As palavras não podem traduzir
Já que os sonhos vezes mil são minhas trilhas
Os verbos não conseguem descrever
Já que os meus desejos mudam com os ventos
As virtudes não sabem legitimar
Já que meus erros têm múltiplas faces
Os defeitos não devem explicar
Já que meus passos cruzam outros rumos
Porque um texto tem intenções demais
Porque uma estrofe tem rimas banais
Mesmo um poema, nem este é capaz
Sobre nós mesmos tudo que diz é gasto
O caminho é longo, o horizonte é vasto...

Melhor que minhas palavras são meus olhos
O que eles trazem
Melhor que meus verbos são meus silêncios
O que está na alma
Melhor que minhas virtudes são minhas mãos
O que elas produzem
Melhor que meus defeitos são meus sorrisos
O que eles constroem.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Noite inefável



Rodrigo Falcão

Noite inefável que chega
me atrai como a chuva
Eu fico imaginando que sou o bem
e o mal
fugindo de loucuras do além
passo a olhar os telhados das casas
e o cheiro de chuva torna a deixar tudo tão forte como o vazio
Seria a solidão?
Não, seria a frieza
no semblante das pessoas
Assim como nós precisamos de ternura
Uns têm e querem dar
Outros não.
Assim, estou aqui rindo e contemplando devaneios
Com música e álcool
Sem precisar das coisas
que nunca tive e preciso ter

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Duas canções de silêncio



Vinícius de Moraes
Orford, 1962

Ouve como o silêncio 
Se fez de repente 
Para o nosso amor 

Horizontalmente... 

Crê apenas no amor 
E em mais nada 
Cala; escuta o silêncio 

Que nos fala 
Mais intimamente; ouve 
Sossegada 
O amor que despetala 
O silêncio... 

Deixa as palavras à poesia...