Ah, poeta...
"Dá-me sonhos teus para eu brincar" *
E que não seja mais eu a dizer minhas mãos;
Vem agora tu escrever minha vida,
Regar as minhas mudas tímidas de liberdade,
Meus projetos de norte e sul de toda parte,
Para que não haja mais lacunas entre ser e expressar...
Eu digo certo as coisas dos homens,
E somo de cor as contas quadradas da álgebra,
Mas não domino o plano disforme de contar poesia,
De arrumar palavras sabendo onde cada uma cabe,
De ajeitá-las de modo que possam abrigar um olho,
E tão rapidamente alcancem seus destinos de dizer.
Ah, vem morar na minha aldeia,
Acende-me o azul dos dias,
Que tudo meu é cansado de cinza e de ocaso.
Conta-me como se descreve um doer em verso,
Pois nem sempre juntando dor e pena dá poema.
Explica-me como são as alegrias das palavras rimadas,
Ensina-me como sair em curvas por dentro do sentimento,
E ao mesmo tempo ter a mais reta visão de isento.
Se me estenderes teu rio como caminhada,
Não secarei ao tempo, de morte não morrerei...
Se me estenderes teu rio como caminhada,
Não secarei ao tempo, de morte não morrerei...
Ah, acende-me um instante de tua plenitude,
E deixa-me enxergar o viés da alma, o frenesi dos sentidos.
Não quero ser apenas de viver e morrer como faço...
Preciso de tua escada para enxergar a altura do mundo,
Porque meu chão de gente comum é estreito de tão óbvio.
E assim, de frente para teu tamanho de mar e de poeta,
Que eu me faça afluente para me perder de tanto rumar.
Só depois disso assim, de ir tão longe como tu escreves,
De conferir infinitamente poesia como tu és,
Desça eu as escadas e encontre já um outro de mim,
Com alma suficiente para um mundo inteiro.
Ricardo Fabião (Março - 2010)
(*) O verso "dá-me sonhos teus para eu brincar" faz parte do poema O guardador de rebanhos, de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa).
