quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Menino e Menina #15anosSemCássia




Zélia Duncan
[Para Cássia Eller, Rio/2001]


De repente tudo vira resto
Falso anexo de um conteúdo
Seu grito, agora mudo
Calou fundo nosso fiapo de voz
Ficou tão sem graça acordar nesse mundo
Andar sabendo que nunca mais
Vou te esbarrar na esquina
Menino e menina
Desejo tatuado
Carinho, violão, amor, acaso
Amizade no braço
Sem muitas palavras
Apenas te encontrava
E me sentia muito mais viva do que agora
Memórias que alimentam
Te encontro depois da escola
Na hora do ensaio, enquanto sonhamos no vento
Enquanto corremos alegres, pra lugar nenhum
Segredo no ouvido, tanto amor escondido
Depois aprendemos
Que amor não se esconde
Nada existe pelo meio
Amor não pode ser feio
Conta isso pro mundo inteiro
Abusa, levanta a blusa!
E mostra a alma, Vestida de seu corpo
Sem luxo, seu luxo, escracho e beleza
Real realeza pra cuja coroa
Não existe mais cabeça
O Brasil é uma ilha, coitado
Cercado de sua ausência
Por todos os lados.


Homenagem à Cássia Rejane Eller, pelos 10 anos de sua morte.
* 10/12/1962   
+ 29/12/2001

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

O morcego

Augusto  dos Anjos

Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego.
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Poesia, volta... Fico muito longe de mim sem você!

Jessiely Soares


Eu preciso da poesia, mapa com versos gastos
bêbada, sem sapatos
ou com flores na janela.
Falando da lembrança que esfacela
ou do singelo poeta incediário.

Um poema de versos detalhados
com gosto de vento, neve e velas
como uma noite abandonada numa cela
como a platéia que esvazia um teatro.

Eu preciso dela, que resulta nesse poema
tristeza, envolta em névoa do passado.
Com inútil tristeza que se pinta
da morte que nos deixou só um retrato...


quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Habeas Pinho (petição)



Ronaldo Cunha Lima
(O poeta)

"Um boêmio foi preso fazendo uma serenata e, no dia seguinte, fui procurado pelo boêmio, porque o  violão estava preso. O delegado prendeu o violão como prova do crime. E eu procurei o juiz, Dr. Arthur Moura, que me falou: - O instrumento do crime é um violão; o advogado é poeta; o réu é um boêmio da poesia. Faça um verso que eu defiro. Então, resolvi fazer o poema para liberar o violão.

A petição 'Habeas Pinho' feita por Ronaldo, foi escrita nos seguintes termos:

O instrumento do crime que se arrola
neste processo de contravenção
não é faca, revólver nem pistola,
é simplesmente, doutor, um violão.

Um violão, doutor, que na verdade
Não matou nem feriu um cidadão.
Feriu, sim, a sensibilidade
de quem o ouviu vibrar na solidão.

O violão é sempre uma ternura,
instrumento de amor e saudade.
O crime a ele nunca se mistura.
Inexiste entre eles afinidade.

O violão é próprio dos cantores,
dos menestréis de alma enternecida
que cantam as mágoas que povoam a vida
e sufocam suas próprias dores.

O violão é música e é canção,
é sentimento vida e alegria,
é pureza é néctar que extasia,
é adorno espiritual do coração.

Seu viver como o nosso é transitório,
mas seu destino, não, se perpetua.
Ele nasceu para cantar na rua
e não para ser arquivo de cartório.

Mande soltá-lo pelo amor da noite
que sente vazia em suas horas,
p'ra que volte a sentir o terno açoite
de suas cordas leves e sonoras.

Libere o violão, Dr. Juiz,
Em nome da justiça e do Direito.
É crime, porventura, o infeliz,
cantar as mágoas que lhe enchem o peito?

Será crime, e afinal, será pecado
será delito de tão vis horrores,
perambular nas ruas um desgraçado
derramando na rua as suas dores?

É o apelo que aqui lhe dirigimos,
na certeza do seu acolhimento.
Juntada desta aos autos nós pedimos
e pedimos também DEFERIMENTO."

O então juiz de Direito da 2ª Vara da Comarca, Arthur Moura, não se fez de rogado e respondeu à petição do advogado Ronaldo Cunha Lima no mesmo estilo:

"Para que eu não carregue
remorso no coração,
determino que se entregue
ao seu dono o violão."

Campina Grande, junho de 1955.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Fotografia


Luiz Humberto
   (Fotógrafo e professor da UnB)


Que seria da memória
sem a fotografia?

Que seria do homem
sem seus vestígios?

Como saberíamos dos avós,
do rosto da infância de nossos filhos?

Que seria de nós
sem ancoragem
no tempo que esgarça e destrói?

Que seria de nós
sem nossos baús
de saudade
e choro?

É a fotografia que segura relógios,
retorna calendários,
faz do passado presente,
num instante.

Fala do retrato denunciador,
da esperança sumida,
dos amores acabados,
cujas caras
não mais nos tocam.

Fala da finitude
das coisas,
da velocidade,
da vida.

Dá vida
ao já morto,
reacende olhares
por um isntante.

Fala das lições
nunca aprendidas,
da esperança
na razão
sem razão.

Fala, fotografia!
Dá notícias do homem,
em seu difícil trajeto.


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Memória

Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.





segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Sobre a dor

Rodrigo Falcão

É o sentimento real e agudo, de vida vivida
feito de forma sofrida e recatada

É como a memória no choro de criança,
dentro do útero na gestação materna

É estar dentro da suavidade do blues  mágico,
imaginado Robert Johnson transformando-se em maestro

É nunca mais escutar o poeta jamaicano infeliz,
repetir constantemente: não chore mais!





Inania Verba

Olavo Bilac


Ah! quem há de exprimir, alma impotente e escrava, 
O que a boca não diz, o que a mão não escreve? 
- Ardes, sangras, pregada a' tua cruz, e, em breve, 
Olhas, desfeito em lodo, o que te deslumbrava... 

O Pensamento ferve, e é um turbilhão de lava: 
A Forma, fria e espessa, é um sepulcro de neve... 
E a Palavra pesada abafa a Idéia leve, 
Que, perfume e dano, refulgia e voava. 

Quem o molde achará para a expressão de tudo? 
Ai! quem há de dizer as ânsias infinitas 
Do sonho? e o céu que foge à mão que se levanta? 

E a ira muda? e o asco mudo? e o desespero mudo? 
E as palavras de fé que nunca foram ditas? 
E as confissões de amor que morrem na garganta?!



sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Poema

Ricardo Anísio


Como me arde assim em desencanto
A minha alma quedada ao desalento
Talvez n’algum mar sem tanto pranto
Possa eu navegar-me ao descontento

Quiçá naufragar-me-ei sozinho
E do sinistro salvar-se-á a humanidade
Ou então que eu renasça desse espinho
Que meu coração perpassa sem alarde

Não hei de confessar-me degredado
Quando ainda restar-me a primavera
Inalarei odores do pomar sagrado
E erguerei meu túmulo na quimera

Sendo assim estarás me afagando
Quando tuas mãos deitares na borrasca
E a chama estará em mim se apagando
Porque sem ti meu peito é de nevasca!



quarta-feira, 14 de setembro de 2011

À finada amada

Phábio Pio


Numa lista de nomes esquecíveis
Apenas do seu nunca esqueci
Das frases muitas vezes repetidas
Só nas ditas pra você nunca menti
Ainda posso imaginá-la desfilar
Com a leveza de quem anda no ar
Nunca encontrei toque como o seu 
Lembro bem do beijo de despedida
E nem sabia que era nosso adeus 
Aprendi a conviver com sua partida
E com o fato de que você morreu
Certo de encontrá-la em outra vida.


Versos de amor

Augusto dos Anjos



Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a... ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda boca que o não prova engana.

Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!

Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.

Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.

Porque o amor, tal como eu o estou amando,
É espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!

É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima e impalpável,
Que anda acima de carne miserável
Como anda garça acima dos açudes!

Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Mársias - o inventor da flauta - 
Vou inventar também outro instrumento!

Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!

Para que, enfim, chegando a à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d'alma!


segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Presença

Mário Quintana

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...

É preciso que tua ausência trescale
sutilmente, no ar, a trevo machucado,
a folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe por quem nalgum móvel antigo...

Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.

É preciso a saudade para eu te sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...

Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho que fechar os olhos para ver-te!




quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Próxima primavera

Halanna Nóbrega


Falo por aforismos para que poucos entendam
O que sempre ocultei aqui no peito
São sonhos dilacerados pelo acaso dos desencontros
E quando tentei juntá-los, nunca foram por completo.
Catástrofes sucessivas... Romperam o laço do acreditar no porvir
e cometi um crime:
- Passei a duvidar de todos os amores!
Esmurrei pontas de faca e calejei ainda mais o meu coração
E aos poucos, fiquei sem entender como a vida funcionava
Por não achar mais graça no novo dia que nascia:
Entregava-me a boemia das noites solitárias,
E estive a sete passos de ter a minha vida sepultada.
Enforquei-me em minha dor, mas não encontrei a morte
Implorei piedade aos céus, com pouca fé...
E enfim Deus ouviu minhas lamúrias!
trazendo para perto de mim o seu calor
em uma doce primavera que se aproxima...
Que me aquece e me faz afastar essa solidão
Iluminando a minha vida com tua luz...
que já explica o mundo pra mim,
com as flores tuas que ainda irão florescer em meu jardim!



domingo, 28 de agosto de 2011

Conversando com meu pai


Ronaldo Cunha Lima

(O Poeta)



Na quietude d'aquela noite densa,
reclamei numa saudade a presença
do meu Pai, que há muito já morreu!...
Sorumbático e só, fiquei na sala,
sem ouvir de ninguém uma só fala:
todos dormiam entregues a Morfeu.

Continuei sozinho da vigília,
contemplando a placidez da mobília,
num silêncio quase que perfeito;
quebrando apenas com o gemer da rede,
as pancadas do relógio na parede
e o pulsar do coração dentro do peito.

De repente, coberta com um véu,
uma nuvem nascia lá do céu,
na sala onde eu estava, caí...
era algo de espanto realmente
dissipa-se a nuvem lentamente
e vai surgindo a imagem do meu pai.
Boa noite, meu filho! E se assusta?
Tenha mais um pouco de calma, porque custa
novamente voltar por este trilho:
Eu rompi os umbrais da eternidade
para, em braços de amor e de saudade,
conversar com você, filho querido!...
Tenho assistido todos os seus passos,
suas lutas, vitórias e fracassos,
em ânsias que não posso mais contê-las:
eu lhe assisto, meu filho, todo dia,
em suas vitórias choro de alegria
e as lágrimas transformam-se em estrelas.

Tenho visto também seus sofrimentos
suas angústias, dores e tormentos
e esperanças que foram já frustradas;
tenho visto, meu filho, da eternidade,
o desencanto de sua mocidade
e o pranto de suas madrugadas.

Compreendo, também, sua tristeza
ante a ânsia que traz na alma presa
de adejar cortando monte e serra;
sua ânsia de voar, cantando notas,
misturar seu vôo ao das gaivotas,
que beijam os céus sem deixar a terra.
Mas, ao lado dos atos de grandeza,
você me causa, filho, também tristeza,
em desgosto minh'alma já flutua:
Ontem, porque não estava pronta a ceia,
prá sua mãe você fez cara feia,
bateu a porta e foi jantar na rua.

Você não soube, meu filho, e no entanto,
ela caiu prostrada em um pranto
soluçando seu íntimo desgosto.

Nunca mais, meu filho, isto faça,
pois para o filho não há maior desgraça
que em sua mãe deixar rugas no rosto.
Nunca mais a ofenda, nem de leve!...
O seu amor a ele aos céus eleve
e escute sempre, sempre o que ela diz.
Peça a Deus para durar sua existência
e, se assim fizer de consciência,
você, na vida, tem que ser feliz.

Conduza-se na vida com altivez,
fazendo da probidade, da honradez,
para você o seu forte brasão;
aprofunde-se, meu filho, no estudo,
fazendo da justiça o seu escudo,
amando o povo como ao seu irmão.

Continue no trabalho a que se entrega
sem temer obstáculo nem refrega,
pois com a vitória sempre você vai,
e se assim fizer, querido filho,
sua vida há de ser toda de brilho,
e honrará o nome de seu pai.

E nisso a nuvem comoventemente,
aos poucos se junta novamente,
envolvendo meu pai num denso véu;
e num olhar meigo e bem sereno,
dirige para mim um triste aceno
e vai de novo subindo para o céu!

E eu fiquei chorando de saudade,
alimentando aquela ansiedade,
sem poder abrandá-la. Que castigo!
Por isso nunca mais dormi. Vivo na ânsia,
esperando que meu Pai rompa a distância,
prá vir de novo conversar comigo.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Esconderijo

Ricardo Fabião



Há um menino por baixo das coisas,
Por tão dentro assim que se diz âmago.
Ali, no mais distante e só do nosso ser,
Onde não acontecem palavras nem sol.
Ele vive de roer umas migalhas de vida,
Sob o regime vigilante do bom senso...

Às vezes joga verdades pela nossa boca,
Mas logo rejeitado retorna para sua cela.
Está sempre sozinho, ausente das horas,
Com destino de eterno breu e silêncio.
Lá não há escada que facilite sua fuga,
Nem verdades que clareiem o caminho.

Esse menino levaremos calado até o fim,
Para que vençam nossas meias-verdades,
E façam de nós homens que não fomos,
E sagrem mulheres que jamais existiram,
E que assim a estrada de viver siga planos,
E a sociedade não seja afetada pelo real.

Esse garoto e sua bandeira pequenina,
Assim guardado talvez seja o único jeito
De manter no caminho a raça humana;
Driblando verdades, maquiando desejos.
Que durma pois nosso menino em sigilo,
Deixado para um acaso qualquer adiante.

Hoje não, que viver ainda é de disfarces,
Um contrato assinado antes de nascermos:
Por um quase-caminho vai uma quase-vida;
Um seguir de regras sumariamente prontas.
É só viver do tamanho que morre o âmago,
E agendar para outra vez o que silencia.



Olhos d'água


Phábio Pio


Eu vesti meu melhor sorriso e minhas luvas de estimação
Para cumprimentar pessoas que para mim não significam nada
Onde você estava, olhos d’água?
Gargarejei e me embriaguei e causei prejuízos a sua reputação
Enquanto ouvi a marcha dos tolos e dancei de roupa encharcada
O que você ouviu olhos d’água?
Arranquei todas as figuras suspensas do meu quadro de ilusão
E estive a meia-dúzia de passos de ter a minha vida sepultada
Por que não estava comigo, olhos d’água?
Existem quase sete bilhões de pessoas nesse velho mundo cão
Que nunca vão ler nenhuma das minhas palavras dilaceradas
Você leu alguma delas, olhos d’água?
Não percebe que apenas mendigo um pouco de atenção?
Não, você nada vê, quando está com os olhos cheios de lágrimas.





quarta-feira, 20 de julho de 2011

Por mais uma vítima do trânsito. Até quando?


Deusimar Guedes


Raiza, meu amor!
Só hoje estou lembrando que nestes seus mais de dezessete anos de vida na terra eu nunca lhe escrevi uma carta. Assim, resolvi me comunicar com você desta forma, talvez antiquada para o mundo atual, em que as pessoas se comunicam com equipamentos eletrônicos de tecnologia moderna como: computadores portáteis, telefones móveis e similares. Mesmo assim insisto em escrever-lhe esta carta para lhe dizer coisas que o dito mundo moderno não nos dá tempo para dizer. Pais e mães da modernidade precisam trabalhar mais de uma dezena de horas por dia para suprirem seus desejos de consumo desenfreado, imposto pelo capitalismo selvagem, onde o "TER" é bem mais importante que o "SER". Assim, as relações humanas, mesmo entre os familiares e entes queridos são sempre momentâneas e voláteis.
Desta forma, descrevo nesta carta algumas coisas que não tive tempo de lhe dizer.
Só agora percebo, querida filha Raiza, quantos caminhos desta vida eu não pude lhe mostrar.
Porque você partiu tão cedo meu anjo? Dizem que foi Deus que a chamou para assessorá-lo lá no céu. Mas ele não me emprestou você para que eu pudesse educar? Diga pra Deus que, apesar de eu ter lhe ensinado a não fazer uso abusivo de drogas, a respeitar o próximo, a escolher bem as companhias, a não dirigir antes dos dezoito anos, a jamais cruzar o sinal vermelho no trânsito etc, eu não tive tempo de lhe dizer que, apesar de agirmos sempre de acordo com estes ensinamentos e amar o próximo, existem pessoas que desrespeitam, que abusam de drogas lícitas e ilícitas, que dirigem embriagadas, que avançam o sinal vermelho, que atropelam e matam pessoas inocentes quando do retorno das suas orgias noturnas. Perdão minha filha, porque apesar de ter lhe feito acreditar que o mundo é dotado de mais trigo do que joio, no nosso Brasil, muitas vezes os trabalhadores responsáveis pela retirada do joio do meio do trigo falham, e, consequentemente, o bom e saudável trigo é injustamente destruído.
Perdão meu amor, por ter me esquecido de lhe advertir sobre a constante presença de ervas daninhas, mesmo num plantio de propriedade de Deus. Prometo que continuarei lutando para cumprir o que lhe ensinei e prometi, ou seja, a busca de um mundo melhor, mais justo e mais humano, onde o joio não continue destruindo e sufocando o trigo.
Devo dizer que não está sendo fácil, é uma luta desigual. Assim, já que você está ai no céu, fale com Deus, e diga-lhe que preciso de forças para enfrentar o momento mais triste da minha vida. Além do luto da partida precoce de minha amada filha "caçula", ainda tenho que manter o coração brando e não alimentar o sentimento de vingança tão presente em nós, imperfeitos seres humanos, sentimento este muitas vezes alimentado pela sensação de injustiça reinante aqui na terra.
Nunca esqueça que te amo. Saudades sem fim.
Assinado: seu imperfeito e relapso pai aqui da terra.

(Homenagem a sua filha Raiza, morta em um acidente de trânsito em João Pessoa, por um motorista "assassino" embriagado, em 16 de julho de 2011)



* Esta carta foi publicada em solidariedade à família de Raiza.