Artur da Távola
Diferente não é quem
pretenda ser. Esse é um imitador do que ainda não foi imitado, nunca um ser
diferente.
Diferente é quem foi
dotado de alguns mais e de alguns menos em hora, momento e lugar errados para
os outros. Que riem de inveja de não serem assim, e de medo de não agüentar,
caso um dia venham a ser. O diferente é um ser sempre mais próximo da perfeição.
O diferente nunca é
um chato. Mas é sempre confundido por pessoas menos sensíveis e avisadas.
Supondo encontrar um chato onde está um diferente, talentos são rechaçados;
vitórias, adiadas; esperanças mortas.
Um diferente medroso,
este sim, acaba transformando-se num chato. Chato é um diferente que não
vingou.
Os diferentes muito
inteligentes percebem porque os outros não os entendem. Os diferentes raivosos
acabam tendo razão sozinhos, contra o mundo inteiro. Diferente que se preza
entende o porquê de quem o agride. Se o diferente se mediocrizar, mergulhará no
complexo de inferioridade.
O diferente paga
sempre o preço de estar - mesmo sem querer - alterando algo, ameaçando
rebanhos, carneiros e pastores. O diferente suporta e digere a ira do
irremediavelmente igual, a inveja do comum, o ódio do mediano. O verdadeiro
diferente sabe que nunca tem razão, mas que está sempre certo.
O diferente começa a
sofrer cedo, já no primário, onde os demais, de mãos dadas, e até mesmo alguns
adultos, por omissão, se unem para transformar o que é peculiaridade e
potencial em aleijão e caricatura. O que é percepção aguçada em: "Puxa,
fulano, como você é complicado". O que é o embrião de um estilo próprio
em: "Você não está vendo como todo mundo faz?"
O diferente carrega desde
cedo apelidos e marcações, os quais acaba incorporando. Só os diferentes mais
fortes do que o mundo se transformaram (e se transformam) nos seus grandes
modificadores.
Diferente é o que vê
mais longe do que o consenso. O que sente antes mesmo dos demais começarem a
perceber. Diferente é o que se emociona enquanto todos em torno agridem e
gargalham.
Diferente é o que: engorda
mais um pouco; chora onde outros xingam; estuda onde outros burram. Quer onde
outros cansam; espera de onde já não vem; sonha entre realistas; concretiza
entre sonhadores. Fala de leite em reunião de bêbados; cria onde o hábito
rotiniza; sofre onde os outros ganham.
Diferente é o que:
fica doendo onde a alegria impera. Aceita empregos que ninguém supõe. Perde
horas em coisas que só ele sabe importantes. Engorda onde não deve. Diz sempre
na hora de calar. Cala nas horas erradas. Não desiste de lutar pela harmonia.
Fala de amor no meio da guerra. Deixa o adversário fazer o gol, porque gosta mais
de jogar do que de ganhar. Ele aprendeu a superar o riso, o deboche, o escárnio
e a consciência dolorosa de que a média é má porque é igual. Os diferentes aí
estão: doendo e doendo, mas procurando ser, conseguindo ser, sendo muito mais.
A alma dos diferentes
é feita de uma luz além. Sua estrela tem moradas deslumbrantes que eles guardam
para os poucos capazes de os sentir e entender. Nessas moradas estão tesouros da
ternura humana dos quais só os diferentes são capazes. Não mexa com o amor de
um diferente. A menos que você seja suficientemente forte para suportá-lo
depois.
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