domingo, 7 de maio de 2023

Quando o galo cantou

Caetano Veloso 

Eu ainda estava agarrado ao seu pé e à sua mãoUma unha na nuca, você já malucaDe tanta alegria do corpo, da alma e do espírito são
Eu pensava que nós não nos desgrudaríamos maisO que fiz pra merecer essa pazQue o sexo traz?
O relógio parou, mas o sol penetrou entre os pelos brasisQue definem sua perna e a nossa vida eterna, você se consterna e diz"Não, não se pode, ninguém, pode ser tão feliz"Eu queria pararNesse instante de nunca pararNós instituímos esse lugarNada virá
Deixa esse ponto brilhar no Atlântico SulTodo azulDeixa essa cântico entrar no solNo céu nuDeixa o pagode romântico soarDeixa o tempo seguirMas quedemos aqui, deixa o galo cantar

sábado, 8 de outubro de 2022

Menina doce

Brasília, 22 de março de 2019.


Estava perdida
Num labirinto de angústias e incertezas 
Advindas dos fracassos normais do cotidiano dos que vivem imersos no materialismo ilusionista

Uma menina veio e bateu a minha porta
E com toda sua delicadeza 
veio trazendo coisinhas preciosas que andavam distantes 
Abrindo todas as janelas trancadas
Direcionando o caminho das almas conectadas à sua própria essência 

Desperto de sono profundo pelo toque do amor 
De mãos dadas a minha auto estima que andava pelos caminhos de um abandono quase marginal

Mergulho na essência da minha simplicidade tão marcante a minha personalidade

E abraço minha alma conectada ao meu âmago 
Trazida pela menina doce que ilumina a minha vida inteira. 

sábado, 29 de maio de 2021

Urgências



Halanna Nóbrega


Não quero urgências
Cansei de todos os prazos

Quero sentir o minuto demorar
Acompanhar a pluma flutuar
Perceber a brisa mover os meus cabelos
Prestar atenção no respirar
Como uma dança ou o som do mar

Não quero urgências
Cansei de todos os prazos

Extenuei,
Da pressa,
Da intolerância das pessoas e das buzinas,
Dos xingamentos aos distraídos no trânsito.

Não quero urgências
Cansei de todos os prazos

Quero ouvir, ver e sentir o cheiro da chuva
Parar e admirar o sol se por no horizonte
Sem postar nada, esquecer as redes sociais
Prestar atenção as delicadezas ao meu redor
Comumente despercebidas pela pressa.

Não quero urgências
Cansei de todos os prazos

Pressa pra nada.
Pressa pra quê?

domingo, 12 de julho de 2020

Parabelo da Existência

#parabelodaexistenciachicochico

Chico Chico
Francisco Ribeiro Eller


Desde que a cigana resolveu o meu passado
Leu a minha mão, na minha palma, a letra “m”
Quase não enfrento mais as filas do mercado
Já não ecoa em mim as buzinas e as sirenes

De automóveis habitados, apressados a procura de ondas verdes
Marés vermelhas, ondas verdes
Marés vermelhas, ondas verdes

Vejo naufragar o parabelo da existência
Mesmo calejando os pés descalços nos corais
Despertar aflito ora morto e ora vivo
Lágrima pedestre, o verso teso no olhar

Mendigando rosas no asfalto
Mercador de sonhos ancestrais
Pé na encruzilhada, os passos tortos pelo cais

Rezas de metal eu não sei rezar
Sob o viaduto na beira-mar
Dutos de concreto a me percorrer
Mapas da sensatez a me decifrar

Rezas de metal eu não sei rezar
Sob o viaduto na beira-mar
Dutos de concreto a me percorrer
Mapas da sensatez a me decifrar

Rezas de metal eu não sei rezar
Sob o viaduto na beira-mar
Dutos de concreto a me percorrer
Mapas da sensatez a me decifrar

Desde que a cigana resolveu o meu passado.



#ChicoChico
#CássiaEller
#Parabelodaexistencia

domingo, 17 de maio de 2020

Treinamento



Nei Duclós


Estávamos treinando, sem saber
Para este exercício coletivo de solidão
Ao cultivar por anos o abraço a distância
O beijo sem sabor de lábio
O namoro virtual, a amizade falsa

Na superfície remávamos por opção
as relações mais tempestuosas, os conflitos, os bloqueios
Tínhamos softwares como intermediários
Que evitavam o aborrecimento de sermos humanos

Hoje isso é obrigatório
Não podemos mais nos conhecer ao vivo
Nem nos tocar nem ver o que apenas imaginávamos

Fomos punidos
Perdemos a chance de romper a ilusão
Estamos nas janelas acenando
Nas varandas cantando
Com máscaras que somadas são um só rosto.

domingo, 3 de maio de 2020

O haver


Vinícius de Moraes


Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura 
Essa intimidade perfeita com o silêncio 
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo 
- Perdoai-os! porque eles não têm culpa de ter nascido... 

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo 
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo 
De ferir tocando, essa forte mão de homem 
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe. 

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos 
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito 
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível 
Essa irredutível recusa à poesia não vivida. 

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento 
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade 
Do tempo, essa lenta decomposição poética 
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius. 

Resta esse coração queimando como um círio 
Numa catedral em ruínas, essa tristeza 
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria 
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história... 

Resta essa vontade de chorar diante da beleza 
Essa cólera em face da injustiça e do mal-entendido 
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa 
Piedade de si mesmo e de sua força inútil. 

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado 
De pequenos absurdos, essa capacidade 
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil 
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade. 

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza 
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser 
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa 
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje. 

Resta essa faculdade incoercível de sonhar 
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade 
De aceitá-la tal como é, e essa visão 
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante 

E desnecessária presciência, e essa memória anterior 
De mundos inexistentes, e esse heroísmo 
Estático, e essa pequenina luz indecifrável 
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança. 

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos 
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória 
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade 
De não querer ser príncipe senão do seu reino. 

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade 
Pelo momento a vir, quando, apressada 
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante 
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada... 

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto 
Esse eterno levantar-se depois de cada queda 
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha 
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo 
Infantil de ter pequenas coragens.




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Afluente



Para Fernando Pessoa


Ah, poeta...
"Dá-me sonhos teus para eu brincar" *
E que não seja mais eu a dizer minhas mãos;
Vem agora tu escrever minha vida,
Regar as minhas mudas tímidas de liberdade,
Meus projetos de norte e sul de toda parte,
Para que não haja mais lacunas entre ser e expressar...

Eu digo certo as coisas dos homens,
E somo de cor as contas quadradas da álgebra,
Mas não domino o plano disforme de contar poesia,
De arrumar palavras sabendo onde cada uma cabe,
De ajeitá-las de modo que possam abrigar um olho,
E tão rapidamente alcancem seus destinos de dizer.

Ah, vem morar na minha aldeia, 
Acende-me o azul dos dias,
Que tudo meu é cansado de cinza e de ocaso.
Conta-me como se descreve um doer em verso,
Pois nem sempre juntando dor e pena dá poema.
Explica-me como são as alegrias das palavras rimadas,
Ensina-me como sair em curvas por dentro do sentimento,
E ao mesmo tempo ter a mais reta visão de isento.
Se me estenderes teu rio como caminhada,
Não secarei ao tempo, de morte não morrerei...

Ah, acende-me um instante de tua plenitude,
E deixa-me enxergar o viés da alma, o frenesi dos sentidos.
Não quero ser apenas de viver e morrer como faço...
Preciso de tua escada para enxergar a altura do mundo,
Porque meu chão de gente comum é estreito de tão óbvio.
E assim, de frente para teu tamanho de mar e de poeta,
Que eu me faça afluente para me perder de tanto rumar.

Só depois disso assim, de ir tão longe como tu escreves,
De conferir infinitamente poesia como tu és,
Desça eu as escadas e encontre já um outro de mim,
Com alma suficiente para um mundo inteiro.


Ricardo Fabião (Março - 2010)



(*) O verso "dá-me sonhos teus para eu brincar" faz parte do poema O guardador de rebanhos, de Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa).

domingo, 18 de novembro de 2018

Não há vagas

Resultado de imagem para não há vagas ferreira gullar poema


Ferreira Gullar

O preço do feijão
não cabe no poema.
O preço
do arroz
não cabe no poema.
Nao cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão
O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em seus arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras.
porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”
Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço
O poema, senhores,
não fede nem cheira.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Leve e suave



Lenine

Há de ser leve
Um levar suave
Nada que entrave
Essa vida breve
Tudo que me atreve

A seguir de fato
O caminho exato
Da delicadeza
De ter a certeza
De viver no afeto
Só viver no afeto.




Brasília, 29 de outubro de 2018.
Após as eleições.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Sobre o crime

Nei Duclós


Um crime não vem sozinho
Vem de crimes, seus vizinhos
De outro crime submisso
que a lei do crime redime
Para que o crime sobreviva
por ser o crime possível

E há quem se incrimine
Nos comentários avulsos
Passaporte para os crimes
no espaço cada vez mais curto
que chegam ainda mais perto
Na rua onde o crime impera
E invade a cena do crime

E por ser tão acessível
parece que o crime é justo
por vingar os outros crimes
Que impregnam a cidadania
Esta sim, o crime visto
como o maior entre os crimes
Condenada ao silêncio
Que é a única cadeia
De todos os crimes impunes

A pena do crime hediondo
Calar-se por toda a vida.






Marielle Franco, foi uma socióloga, feminista, militante dos direitos humanos e política brasileira. Filiada ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), elegeu-se vereadora do Rio de Janeiro na eleição municipal de 2016, com a quinta maior votação (46.502 votos). Crítica da intervenção federal no Rio de Janeiro e da Polícia Militar, denunciava constantemente abusos de autoridade por parte de policiais contra moradores de comunidades carentes. Em 14 de março de 2018, foi assassinada a tiros no Rio de Janeiro.

#MarielleFranco
#MariellePresente
#Luto 



sábado, 18 de novembro de 2017

Geladeira Azul



Jonathas Falcão 



Vou me abrigar na geladeira
Não pra fugir do calor

Pra conservar teu abraco
Em mim, meu amor

Não derreter, não derreter
Vou te esperar adormecido

Minha saudade congelo
A ponta da tua língua
Há de vencer o gelo

Me derreter, me derreter

As lágrimas congelando, descem
Formando estalactites, tento

Lembrando o tanto que queima, aquece
Meu corpo quando te sinto dentro. 

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Rélogio de não marcar horas


E Agora José?

o beijo dos cegos
dedos e corpos
sejam minha língua
pra te dizer

o que minha alma fala
em gritos e urros, falo
mais alto, em silêncio
fazendo cafuné em seus cachos

quero e me perco de desejo
com você em meus braços
dormindo em meu peito

sempre feliz como agora
perdendo ponteiros
esquecer as horas.